Isabel Duarte e Maria João Macedo
would prefer not to
A Queda, 2008
Ensaio
4 fotografias, 50x75 cm
A Queda
Pose / Instantâneo: Queda
Queda é perda de controlo corporal, um acontecimento por definição inesperado que remete para uma cessação de movimento, para fim. Mas queda é também deslocação, mudança de posição no espaço e em função do tempo, muito embora se trate de um fenómeno inadvertido.
A pose e o instantâneo fotográfico estão relacionados com a dimensão temporal e espacial da fotografia. O título "Queda" serve também esta dualidade, pela sua dupla significação como nome, relativa ao efeito de cair e, como verbo, relativa a quedar, parar, deter.
Neste caso a associação à pose pode ser feita por se tratar de uma situação encenada. Mas mais do que uma encenação, trata-se de uma simulação, porque é na verdade impossível prever rigorosamente a velocidade e as várias posturas que acontecem no decurso de uma queda. A impossibilidade de dominar em absoluto todas as condicionantes do processo aproxima este exercício da negação da existência de um instante decisivo. Apesar de estas fotografias serem assumidamente instantâneos, no que se refere à queda não se pode dizer que sejam representações de momentos culminantes, até porque, de facto, para a descrição de uma queda mais se justifica que não o sejam. A este ponto a fotografia manifesta-se, tornando notável o instante vulgar que decidiu fotografar. A fotografia detém a queda na superfície pictórica, interrompe-a, impede-a de se completar em imagem, introduzindo um poder de sugestão ainda mais significativo ao colocar-se num tempo indeterminado algures no entretanto da acção. A imagem remete para um tempo suspenso, regista um acontecimento que não tem advento, um corpo que descreve uma queda que não chega nunca a completar-se. É captada uma postura impossível e, ao mesmo tempo vulgar. A fotografia encarrega-se de destacar esse instante, de o monumentalizar.
O potencial traumático da imagem sai ainda reforçado ao excluir a duração. O momento fotografado antecipa o embate, precede o trauma, priva-o de catarse. Por outro lado, prolonga o tempo, eterniza a queda. Estas associações que a própria fotografia se encarrega de criar não deixam de ser paradoxais: a referencialidade do meio fotográfico imbui-o de plausabilidade mas vai ainda mais além ao fazer perdurar uma imagem que só consegue ser assimilada em pleno porque está congelada na superfície pictórica e pode ser sempre revisitada e analisada. Neste sentido, podemos dizer que este instantâneo pertence a um tempo, ainda que plausível, imaginário, um tempo espectral mas vibratório.
“A queda” (e não “uma queda”) aparece ainda exponenciada porque resulta de uma tentativa de tipificar o movimento, elege um momento-entre da acção e consegue torná-lo emblemático. O "qualquer" é substituído por "este mesmo" ao ser individualizado.
Desdobramentos: movimento - espaço - tempo
A criação de uma série ou uma sequência de imagens não pretende ser narrativa ou descritiva da acção, é antes usada como colecção de um mesmo instantâneo repetido em frames equivalentes que reformulam o ponto de vista do espectador e apontam para um recalcamento do tempo na perspectiva de o tornar cíclico. A eternidade da queda aparece, assim, desdobrada, mas num desdobramento vazio, porque é estático e repetido. Este desdobramento investe na descoberta progressiva da postura que o corpo adopta quando cai e, simultaneamente, vai desvendando a cena ao introduzir, de imagem para imagem, novos elementos que apontam para a descrição do espaço.
Desconstruindo ainda mais o potencial narrativo da fotografia, confronta-se personagem em queda com outro figurante. As duas alternam entre si a hierarquia da presença na imagem para definir contra-pontos temporais dentro da própria fotografia. A acção central ocorre na personagem em queda mas convive com a figuração desta outra presença que serve para testar essa duração real que na superfíce da imagem é instantânea. Introduz-se, assim, o elemento falso: a queda desdobra-se em diferentes pontos de vista sobre uma mesma postura e um mesmo espaço, o tempo desdobra-se apenas na segunda personagem, e o espaço na distância que esta percorre.
A função desta segunda personagem é, em primeira instância, a de traduzir a temporalidade da queda em termos de espaço percorrido. Em termos práticos, o espaço percorrido só consegue ser medido lateralmente e portanto também o tempo decorrido só é perceptível de um ponto de vista lateral. A alternância da colocação da câmara fotográfica preside à definição do ponto de vista do observador e torna necessário o desdobramento sequencial como possibilidade verificativa única do tempo e do espaço na imagem.
-
Referências:
Roland Barthes, “A câmara clara”
Thierry De Duve, “Pose ou Instantâneo Fotográfico”
Gilles Delleuze, “A imagem-movimento”, “A imagem-tempo”
Bragança de Miranda, “Queda sem fim”