Isabel Duarte e Maria João Macedo
would prefer not to
Homem Selvagem, 2009
16x22,5 cm
relacionado:
P&B
Do Mito do Homem Selvagem
Homem Selvagem
"Não farás para ti nenhum ídolo"
Na base da origem de um mito estão questões que se prendem com a repressão moral como alimentadora de construções mentais fetichistas. É da natureza humana a propensão para a idealização e culto de figuras do tipo do Homem Selvagem.
O Homem Selvagem, uma concepção da mentalidade medieval dominada pelos códigos religiosos da época, ganha contornos de heresia e adquire a figurações mutáveis ao longo dos tempos conformadas aos ideais, também em permanente mutação, das sociedades.
Ao definir-se o Homem Selvagem como uma representação puramente ideológica e ficcionada, constantemente reinventada a um nível, senão civilizacional, até pessoal, torna-se interessante pensé-lo à luz de qualquer contemporaneidade.
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Este projecto recontextualiza o mandamento bíblico "Não farás para ti nenhum ídolo" (abolido pela religião católica no Concílio de Niceia em 787) que adverte como norma de boa conduta cristã a proibição da construção de imagens.
A decisão de ilustrar verbalmente esta proibição acentua o potencial imagético do próprio texto. Na ausência de imagem, o texto ganha esse carácter representativo e propiciador do mito - faz de nós transgressores. O livro em que é apresentada a frase "Não farás para ti um ídolo" é um Propiciatório de Ouro - lugar de culpa e de pagamento de pecados. As folhas de ouro de que é feito transportam a noção de materialidade e, embora ausentes de figuração, espelham a imagem do luxo. O texto, a que se tem acesso só após o folhear exaustivo das páginas douradas, incorpora toda a violência e agressividade que, porventura, nenhuma representação figurativa do Homem Selvagem conseguiria.