Isabel Duarte e Maria João Macedo
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Cego por Uma Esmola, 2009
texto publicado na Voca - Revista de Arte
#2 - Efe de Ficção

relacionado:
On Bullshit de Harry Frankfurt

A propósito de ficção e performance, tivemos com a artista Vera Mota uma conversa em que se falou, entre outras coisas, em códigos de comportamento artificiais e identidades forjadas.

Num ensaio que por razões várias não chegou às páginas desta revista, a Vera empregou uma expressão que em mais do que um sentido serve de mote ao texto que aqui apresentamos:

Num ensaio que por razões várias não chegou às páginas desta revista, a Vera empregou uma expressão, que em mais que um sentido, serve de mote ao texto que aqui apresentamos:

CEGO POR UMA ESMOLA *

The tale is as old as the Eden Tree - and new as the new-cut tooth -
For each man knows ere his lip-thatch grows he is master of Art and Truth;
And each man hears as the twilight nears, to the beat of his dying heart,
The Devil drum on the darkened pane: "You did it, but was it art?"

A história é tão velha quanto a árvore do Paraíso -e tão nova quanto os primeiros dentes -
Pois todo o homem sabe, antes do crescer da barba que é mestre da Arte e da Verdade
E todo o homem ouve no aproximar do crepúsculo, ao bater do seu coração moribundo,
A pancada do Diabo na vidraça sombria: "Fizeste-o, mas era Arte?"

The Conundrum of the Workshops / O Enigma das Oficinas de Rudyard Kipling, recitado por Orson Welles no filme F for Fake

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O domínio sobre Arte e Verdade, tal como Orson Welles indicia citando O Enigma das Oficinas de Kipling, parece envolver doses de mestria e, no limite, consentir a artimanha. A sobrevalorização da perícia (e da opinião dos chamados peritos) na avaliação da autenticidade do que quer que seja indica a consequente primazia do artifício e denuncia a constituição ardilosa do circuito de manutenção da cultura. Ocupado com a esteticização das coisas, o desígnio presentificador da arte trabalha consciente de que tem de ser fraudulento para vingar numa cultura que também o é.

Para tentar analisar este fenómeno aludimos às propriedades do bullshit – em português, treta. Por treta entende-se uma espécie de comunicação deturpada que se poderá aproximar da charlatanice e do bluff. Mas não se confunda treta com mentira. A treta, além de não possuir o carácter ofensivo da mentira, é produzida sem uma preocupação efectiva com a verdade, simplesmente não se empenhando em fazer uma representação exacta da realidade nem em mentir preponderantemente acerca dela. A sua atitude é, no fundo, benigna – quem a pratica não tem, ou pelo menos não tem consciente, a pretensão de introduzir incisivamente o falso no seu conteúdo mas, pelo contrário, ficciona todo o contexto da sua ocorrência. A treta tem, portanto, uma maior dimensão imaginativa e experimental do que a mentira. No fim de contas, é também isto que a ficção, quando usada num sentido táctico, promove.

Pensando no propósito com que a treta pode ser perpetrada, deparamo-nos com uma essência sobretudo processual. Mais do que a deturpação deliberada da declaração propriamente dita, importa a transmissão de uma certa atitude por parte do perpetrador que vai, simultaneamente, construindo uma imagem de si próprio. A chamada 'conversa da treta' permite aos interlocutores gozarem uma certa irresponsabilidade e informalismo, promovendo uma maior intensidade no discurso e níveis mais elevados de franqueza. O recurso à improvisação nestes casos aporta também genuinidade e, nesse sentido, há qualquer coisa de autêntico na treta. Não queremos com isto denunciar possíveis falsidades no discurso artístico mas, pelo contrário, chamar atenção para as venturas de um tipo de comunicação menos ansioso de plausibilidade – nem por isso deficiente em significado ou importância.

À necessidade de credibilidade junta-se, muitas vezes, o esforço de fundamentar os conteúdos através da análise binária. A demarcação de fronteiras - como é o caso da tentativa de opor ficção e realidade, arte e vida, treta e verdade, ilusão e fraude – não importa terminantemente para a apuração da substância da comunicação. Até porque o compromisso excessivo em falar a sério e sem faltar à verdade pode inibir produções mais criativas.

Inspiradas pela obra cinematográfica de Welles, tentamos também com este texto enfatizar os artifícios da edição que, estamos convictas, estão longe de se dedicarem à mera categorização de assuntos. Também a edição tem qualquer coisa de fraudulento. Procurando relacionar coisas, ainda que díspares, num sistema significativo, a edição tenta conduzir a interpretação – põe em prática uma espécie de poder manipulativo. E aquele que edita, assim como o charlatão ou o autor do bluff, praticando uma tarefa quase invisível mas não neutra, ficciona um contexto que espelha também uma atitude. No fim, tudo isto é posto ao serviço de uma ilusão de coerência interna, que talvez pouco se importe com a justiça que é feita às partes de um todo, esse sim, que se quer consistente. Falamos de um exercício de síntese, comum também à arte, passível, como tal, de sofrer de imprecisões.

Este factor é ainda intensificado quando se trata da produção de um discurso que muitas das vezes prima por ser intuitivo, como é o caso do das práticas criativas. Acontece que a explicação honesta (e por honesta entenda-se racional) de um impulso criativo é difícil e pode até transcender as intenções da sua formulação.

Por esta razão, e por estar tão difundida e estabelecida, há uma certa disposição para aceitar a intercessão da treta. E, neste contexto, parece indispensável distanciá-la de uma conotação apenas negativa. Mais importante do que denunciar a fraude é consciencializarmo-nos dos seus possíveis danos e focarmo-nos nas repercussões positivas que a treta pode ter quando usada num sentido especulativo. Porque o referido circuito de manutenção da cultura não necessita de bufões, mas de investimento comprometido no seu faz-de-conta contínuo para que se perpetue a boa ficção, o bom espectáculo.

A cultura contemporânea, desimpedida da responsabilidade de que as suas produções sejam verosímeis, torna legítimo que se apele à treta quando não se domina o assunto, assim como se apela à edição para configurar textos, à arte para criar, à escrita para clarificar uma atitude, a um texto para justificar uma falha ou a uma falha para justificar um texto *.

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